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Contos & Crônicas

ROSA DOS ZÓIO VERDE

A abanação do rabo do teiú excitava ainda mais a serpente...

15/02/2023 - 10:54 | Atualizado em 06/07/2023 - 16:02

  • ROSA DOS ZÓIO VERDE

 

Djalma B. de Lima – Jun/2018


Rosa dos Zóio Verde palitou os dentes com o espinho-agulha e depois os areou com as folhas de boldo amassadas. Cuspiu o suco amargoso e lavou as mãos na bica e para enxugar saiu batucando no peito e nas ancas.

Seguiu para a sede, de onde bem cedinho saíam as ordens para as tarefas do dia. A Seu Justino, o dono de tudo, devia respeito e admiração.  Pouco antes, não mais que a vinte passos do casarão, menina Rosa sentiu um arrepio forte, um aviso, daqueles que só os crentes reconhecem.

 

Debaixo da tulha erguida sobre seis troncos fincados na terra poeirenta, ciscou um vulto esguio e sinuoso denunciado por um guiso forte que indica o tamanho do bicho - uma cascavel madura, grossa feito pau de angico com mais de oito palmos de esticadura.

 

Rosa arregalou os zóio verde dum jeito que pareciam duas esmeraldas a alumiar tudo na sua volta. Caçou um pau comprido para enxotá-la, quando percebeu que o bicho se arreganhava contra um valente lagarto acinzentado.  Aproximou-se para ver o espetáculo. Agachou-se e enrolou o vestido nas pernas num recato inútil, sozinha que estava.

A abanação do rabo do teiú excitava ainda mais a serpente que se encaracolou no preparo de um novo golpe. O adversário não hesitou e com a arma que a natureza lhe deu, a cauda longa e flexível, começou a açoitar batendo fortemente no dorso da adversária. 

Os amassos nas escamas eram sinais de fraturas nas espinhas.  Irritada, a serpente atiçava com a língua bi-partida veloz, e na boca ávida exibia suas presas peçonhentas.


Entretida com o show, Rosa dos Zóio Verde sentiu atrás de si a sombra de Seu Justino que chegava de manso e se ajoelhava para nivelar o olhar com o da menina grudado naquela arena selvagem.

 

Seu Justino passou os braços sobre o ombro de Rosa para alcançar o pau que ela mantinha na mão direita. Mandou Rosa sair devagarinho e alcançar o saco de estopa pendurado na parede da tulha. Colocando a menina um pouco atrás de si, em proteção, Seu Justino bateu o pau entre os dois bichos despertando para si a cólera da peçonhenta. O calango saiu em fuga vassourando a cauda prá apagar os rastros.

Agora, a briga mudava de feição. O homem e a víbora iriam se defrontar em duelo outras vezes já assistido pela menina. Seu Justino vociferava:
- Agora te pego viva, fi’a da puta!  ‘Ocê vai ver quem manda mais neste terreiro!

Agora, deitado no chão de terra, vai esticando o corpo todo para trás tocando o peito no solo e,  sem se incomodar com a tinta da terra vermelha na camisa branca, jogava a estopa contra, provocando mais a cobra. Vai recuando e agindo como um domador, com o pau na mão direita, muda o cenário da luta do porão para céu aberto, sempre mantendo olho fixo nos golpes que poderiam ser fatais. As ganachas da víbora, inflavam como um fole, demonstrando toda a sua cólera.  

A luta tomou nova feição: era a Inteligência sobre o instinto; a malícia contra a ira; o caçador contra a fera.

Foi então que o bicho se irritou de vez! Requebrando-se como uma bailarina árabe, elevou o corpo quase à altura de seu próprio comprimento e se esticou para a frente no golpe definitivo.

Era o que o gladiador mais aguardava e, sabiamente, colocou o estopa à frente onde as presas se engancharam, facilitando segurá-la pela cabeça com a mão esquerda e, com a direita, o corpo que se contorcia.
- Agora, menina – gritou para Zóio Verde - traz a gaiola das cobras!

E, de repente, a tensão foi quebrada por uma  gargalhada de zombaria:
– Pronto, agora até cachorro magro mija nela! Do sertão para o viveiro do Butantã - gritava feliz Seu Justino.

Em minutos a presa estava numa na gaiola especial que seguiria para os doutores lá da capital de São Paulo. - Veneno hoje, remédio amanhã!

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